Nadelson Costa Nogueira Jr.Consultoria Estratégica
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Geopolítica da Água

As águas do Oriente Médio: quando os rios viram armas

Por Nadelson Costa Nogueira Júnior ·

As águas do Oriente Médio: quando os rios viram armas
“O rio só tem sentido com a travessia. A paz só tem sentido com a partilha.”

Abro o mapa-múndi e os rios me olham de volta. O Tigre e o Eufrates — os rios do Éden, os rios da Mesopotâmia, o berço onde o homem inventou a escrita, a roda e a cidade. A maioria dos meus dias começa e termina sem que eu perceba que aqueles mesmos rios que ensinaram a humanidade a plantar são hoje, também, os rios que ensinam os Estados a fazer guerra. A água, que sempre foi o alfabeto da vida, virou o vocabulário do conflito.

Foi assim que o século XXI encontrou a sua guerra silenciosa: segundo o Water Conflict Chronology, o banco de dados mais abrangente sobre violência hídrica do mundo, o planeta registrou 420 conflitos ligados à água em 2024 — o maior número já documentado, contra apenas 24 episódios no ano 2000. E o epicentro dessa epidemia tem endereço conhecido: o Oriente Médio, onde os rios são poucos, as fronteiras são muitas e a sede é de todos. Eu prefiro chamar pelo que é: a hidropolítica — a arte de transformar a água em poder.

A civilização nasceu entre duas águas

A região que hoje se disputa é a mesma que um dia se repartiu em bênção. O Tigre e o Eufrates formam o maior sistema fluvial da Ásia Ocidental, atravessando Turquia, Síria e Iraque antes de morrer no Golfo Pérsico. O rio Jordão, por sua vez, corre ao longo da fronteira leste da Cisjordânia, alimentando o Aquífero da Montanha e o Aquífero Costeiro — as três fontes de água doce que Israel e Palestina dividem, ou antes, dividem-se por elas. E o Nilo, o mais generoso de todos, nasce no coração da África e termina o seu caminho no Egito, como quem entrega a própria herança. Rios transfronteiriços, todos: nascem num país, vivem noutro e morrem num terceiro. A água, por natureza, não conhece fronteira; o problema começa quando o homem decide conhecê-la por ela.

Três rios, três teatros de guerra

O primeiro teatro é o Eufrates, que pode secar completamente até 2040, segundo estimativa do Ministério dos Recursos Hídricos do Iraque. A Turquia, a montante, construiu dezenas de barragens — em 2021, o presidente Erdoğan inaugurou a maior delas sobre o Tigre, capaz de gerar 4% de toda a eletricidade turca —, reduzindo drasticamente o fluxo que chega à Síria e ao Iraque. O Iraque, que vive a pior crise hídrica da sua história moderna, é hoje um dos cinco países mais afetados pelas mudanças climáticas do planeta, segundo a ONU. Estudos relacionam a seca que esvaziou o campo sírio à onda de revoltas que degenerou na guerra civil — a água não começou a guerra, mas acendeu o pavio.

O segundo teatro é o Nilo. Em 9 de setembro de 2025, a Etiópia inaugurou a Grande Barragem do Renascimento — a GERD —, a maior hidrelétrica da África: 170 metros de altura, 5.150 megawatts, reservatório de 74 bilhões de metros cúbicos que cobre uma área maior que a cidade do Rio de Janeiro. A Etiópia a chama de "vitória geracional"; o Egito, que depende do Nilo para quase toda a sua água, a denuncia como "ameaça existencial". Egito e Sudão chegaram a promover exercícios militares quando a obra foi anunciada, e um estudo publicado na revista Earth's Future estima que, até 2030, a demanda anual por água na Bacia do Nilo poderá exceder a oferta.

O terceiro teatro é o mais antigo de todos: o rio Jordão e os aquíferos que Israel e Palestina partilham — ou não partilham. Organizações internacionais denunciam há décadas o controle desigual dos recursos hídricos nos territórios ocupados, e reportagens recentes documentam nascentes desviadas de vilas palestinas no Vale do Jordão. Sob o mesmo céu, na mesma terra, a água não é distribuída: é administrada pelo poder.

A água como arma de guerra

O novo capítulo dessa história é o mais inquietante: a água deixou de ser apenas motivo do conflito para virar alvo dele. Em 2026, o regime iraniano declarou que poderia atacar as usinas de dessalinização dos países do Golfo caso suas instalações energéticas fossem alvo de ataques — e a ameaça não é teórica, pois nesses países a água doce é, literalmente, feita de mar: até 90% da água do Kuwait vem da dessalinização, 86% em Omã, 70% na Arábia Saudita e 42% nos Emirados Árabes Unidos. São usinas que produzem, juntas, mais de 20 milhões de metros cúbicos por dia — o equivalente a 8 mil piscinas olímpicas diárias —, transformadas agora em alvos estratégicos, como pontes e quartéis. Quando a infraestrutura que fabrica a água potável vira alvo de guerra, a sede deixa de ser um problema de engenharia para virar um instrumento de chantagem geopolítica. O século XX matou pelo petróleo; o XXI, aprendi, pode morrer de sede.

A inovação que faz o deserto florescer

Há, porém, uma outra história sendo escrita — a da tecnologia que devolve água ao deserto. Israel, que um dia prometeu "fazer o deserto florescer", tornou-se líder mundial em dessalinização, com centrais ao longo de toda a costa mediterrânea que transformaram o seu déficit hídrico em superávit — e o país deverá ser o primeiro do mundo a canalizar água dessalinizada para um lago natural, o Mar da Galileia. A mesma tecnologia que protege, porém, pode humilhar: a água dessalinizada é cara, energética e concentrada onde o poder está — e a pergunta que fica é a de sempre, para quem a história já enganou: tecnologia a serviço de quem? A inovação hídrica, como toda inovação, não escolhe lados; escolhem os que a pagam.

A arte de partilhar a água

A saída, como quase sempre, é menos técnica do que política. O direito internacional ainda engatinha sobre rios transfronteiriços — os acordos existentes sobre o Nilo, herdados de tratados coloniais, já não refletem a realidade da região. A ciência nos ensina que a cooperação é mais barata que a guerra: bacias compartilhadas exigem dados compartilhados, e a água gerida em conjunto historicamente produz mais tratados que tiros. Para gestores públicos e diplomacias, a pergunta muda de lugar: deixa de ser "de quem é a água?" e passa a ser "como governar, juntos, a água que é de ninguém e de todos?". A hidropolítica do século XXI terá de escolher entre ser a ciência da partilha ou a coreografia da guerra — porque os rios, esses sim, já escolheram: eles atravessam.

E assim, eu me sento, às vezes, diante do mapa, e fico admirando esses rios que serpenteiam entre fronteiras desenhadas por homens — lembrando de que lado deve estar a nossa civilização. Às vezes temo… Às vezes espero… Mas, sem dúvida, fica a certeza de que o destino do Oriente Médio dependerá menos da engenharia das barragens e mais da qualidade da nossa memória: a de que fomos, todos nós, nascidos entre duas águas. Porque, no final, o que importa não é o rio, mas a vida que ele atravessa. A água já aprendeu a fazer guerra. Falta-nos, a nós, provar que ainda sabemos fazê-la fazer paz.

Referências

  • Water Conflict Chronology / Pacific Institute — 420 conflitos hídricos registrados em 2024, o maior número já documentado (contra 24 em 2000).
  • Click Petróleo e Gás — "Etiópia inaugura a maior hidrelétrica da África": GERD com 5.150 MW, 74 bilhões de m³, 170 metros de altura (setembro de 2025).
  • Euronews — "Por que uma barragem no Nilo está a causar tanta tensão?" (novembro de 2025).
  • DW Brasil — "A megabarragem da Etiópia que preocupa o Egito e o Sudão"; estudo da revista Earth's Future (2019): demanda por água na Bacia do Nilo pode exceder a oferta até 2030.
  • Canaltech — "Rio Eufrates pode secar completamente até 2040", com base no Ministério dos Recursos Hídricos do Iraque (2023).
  • Monitor do Oriente — "Declínio do Rio Tigre significa destruição para os pescadores do Iraque": Iraque entre os 5 países mais afetados pelas mudanças climáticas (ONU).
  • Euronews — "Erdoğan inaugura maior barragem de sempre no rio Tigre" (novembro de 2021).
  • G1 — "Como a água se tornou arma de guerra na luta dos EUA e Israel contra o Irã" (março de 2026): dependência de dessalinização no Golfo (Kuwait 90%, Omã 86%, Arábia Saudita 70%, Emirados 42%).
  • RFI — "Água potável vira alvo estratégico no conflito do Oriente Médio" (março de 2026): ameaça iraniana a usinas de dessalinização.
  • Sur Journal / Conectas — "Privados de água": as três fontes de água doce de Israel e Palestina (rio Jordão, Aquífero da Montanha e Aquífero Costeiro).
  • Valor Econômico — "Colonos israelenses desviam água de palestinos para encher piscina na Cisjordânia" (agosto de 2026).
  • Operação Mundo / AWWA — Estudos relacionam escassez de água à onda de revoltas civis no Oriente Médio.
  • Tratamento de Água — Israel deverá ser o primeiro país a canalizar água dessalinizada para um lago natural (Mar da Galileia).

Nadelson Costa Nogueira Júnior