O Brasil tem 23,1% das terras raras do mundo e 90% do processamento está na China
Por Nadelson Costa Nogueira Júnior ·

"A principal conclusão do estudo é que o Brasil dispõe de uma oportunidade histórica para se consolidar como ator estratégico nas cadeias globais de minerais críticos. O sucesso desse processo dependerá da capacidade de coordenar políticas públicas, mobilizar investimentos, fortalecer a segurança jurídica e desenvolver capacidades industriais e tecnológicas.
— Ministério de Minas e Energia, estudo que subsidiou a Estratégia Nacional de Terras Raras, 19 de junho de 2026."
A frase é do próprio governo, e ela é mais honesta do que parece à primeira leitura. "Oportunidade histórica" é o que se costuma citar. O que importa está na segunda parte: o sucesso depende de quatro condições, e nenhuma delas é geológica.
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta — cerca de 21 milhões de toneladas, contra 44 milhões da China — e detém aproximadamente 23,1% dos recursos globais conhecidos. A China responde por cerca de 90% do processamento mundial.
A distância entre esses dois números é o tema deste texto. Não é uma distância de minério. É uma distância de planta industrial.
O que a segurança econômica mudou
A OCDE registrou em setembro de 2026 um deslocamento que reorganiza a política de ciência e tecnologia no mundo: a segurança econômica passou a moldar a política de ciência, tecnologia e inovação, de IA e semicondutores a minerais críticos, dados e segurança de pesquisa. A IA deixou de ser tratada apenas como tecnologia de propósito geral e passou a ser tratada como capacidade estratégica.
Isso tem uma consequência direta para países com recurso natural e sem indústria de transformação. O recurso deixa de ser commodity e passa a ser ativo geopolítico — o que é bom para o preço e ruim para a autonomia, porque aumenta a pressão para exportar bruto.
O dado que dimensiona essa pressão é conhecido. Em maio de 2025, os Estados Unidos reduziram tarifas sobre produtos chineses depois que a China retaliou restringindo a exportação de sete minerais de terras raras usados na fabricação de semicondutores e armas. Um país que controla 90% do processamento pode usar isso como instrumento. E usou.
Quem compra, quem processa, quem regula
Antes do argumento, o mapa de atores — porque a política de minerais críticos falha quando trata os três como se fossem um.
Quem compra. Estados Unidos e União Europeia, ambos tentando reduzir dependência de uma cadeia concentrada em um fornecedor que já demonstrou disposição de usá-la como arma comercial. O interesse americano em fontes alternativas é declarado como vital.
Quem processa. A China, com cerca de 90% do processamento global. É o elo que dá poder de fato, porque minério bruto não entra em chip, em turbina eólica nem em equipamento militar sem passar por separação e refino.
Quem regula. O Brasil, que acaba de criar seu marco. A Lei nº 15.506/2026 instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, com o Decreto nº 13.118/2026 definindo sua composição. A lei prevê até R$ 7 bilhões em incentivos a projetos de processamento e transformação.
A diretriz central da política é explícita: adensar a cadeia produtiva, reduzir a dependência de um modelo concentrado na exportação de matérias-primas e ampliar as etapas de pesquisa mineral, beneficiamento, transformação e industrialização.
O que a lei acerta
A política tem um mérito que merece registro, porque é raro no desenho brasileiro de política mineral: ela trata o processamento como o objeto, não a extração.
Isso é tecnicamente correto. O valor está na separação e no refino, não na lavra. Um país que exporta concentrado e importa ímã pronto paga duas vezes — na logística de ida e no preço de volta.
Há também um dispositivo que merece atenção: a lei vincula parte dos recursos a pesquisa, desenvolvimento e inovação, com percentual mínimo que passa a 0,5% após um período inicial. É pouco em termos absolutos, mas é uma amarra que impede que o incentivo se converta integralmente em lavra.
E há o dado que dá escala ao potencial. Estudo da Amcham Brasil projeta que os minerais críticos podem adicionar até R$ 192,1 bilhões ao PIB brasileiro e gerar cerca de 750 mil empregos até 2050, no cenário de maior participação de investimento estrangeiro e expansão do processamento no país. No cenário mais conservador, o impacto é de R$ 128,7 bilhões e 304 mil empregos.
O que a lei não resolve
Aqui está o ponto que a epígrafe do próprio ministério já antecipava: "fortalecer a segurança jurídica" e "desenvolver capacidades industriais e tecnológicas" são condições, não consequências automáticas de uma lei.
E há um dado que complica a leitura otimista. Empresas chinesas investiram cerca de US$ 6 bilhões no Brasil no ano passado — mais do que em qualquer outro país. O capital que viabiliza parte da cadeia brasileira vem do país que domina o processamento que o Brasil quer disputar.
Isso não é um problema em si. É uma condição de negociação, e ela precisa ser nomeada. Um projeto de terras raras com sócio chinês resolve o capital e a tecnologia de separação, e ao mesmo tempo cria uma dependência nova no elo que a política quer dominar. A pergunta que a política não responde é qual o limite aceitável dessa participação.
Há um segundo limite, de mercado. O professor Landgraf registrou ao Estadão, em outubro, que ainda não há clareza sobre como o mercado ocidental de terras raras fora da China evoluirá, apesar da aceleração da demanda global. Ou seja: o Brasil está construindo capacidade para um mercado que ainda não tem preço formado.
O que a comparação com a IA revela
A conexão com a política de IA é mais estreita do que parece, e ela é desconfortável.
O Brasil ocupa a base da cadeia de IA — exporta o mineral que alimenta a fabricação de chip — e o topo — importa o modelo e a capacidade computacional. Não ocupa o meio, que é onde o valor se concentra.
A política de minerais críticos tenta exatamente isso: ocupar o meio. E a política de semicondutores, como mostrei no artigo anterior desta série, aposta em nichos de design, prototipagem, sensores e encapsulamento.
As duas políticas são coerentes entre si. E as duas enfrentam o mesmo gargalo: capacidade industrial e tecnológica que não se compra com incentivo tributário.
Conclusão
O Brasil tem 23,1% dos recursos globais conhecidos de terras raras, a segunda maior reserva do planeta, e uma lei nova com até R$ 7 bilhões em incentivos que trata o processamento — e não a extração — como objeto.
Tem também 90% do processamento mundial concentrado em um único país, cerca de US$ 6 bilhões de investimento chinês no seu próprio território e um mercado ocidental que ainda não formou preço.
A pergunta que o gestor público deveria responder esta semana não é quantas toneladas o Brasil tem. É quantas plantas de separação e refino o país terá em operação em 2035, quem serão os sócios delas e qual o limite de participação estrangeira que a política aceita no elo que ela diz querer dominar.
Referências
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BRASIL. Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026. Institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. Brasília: Presidência da República, 2026. Acesso em: 2 nov. 2026.
BRASIL. Decreto nº 13.118, de 16 de setembro de 2026. Dispõe sobre a composição e o funcionamento do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. Brasília: Presidência da República, 2026. Acesso em: 2 nov. 2026.
ESTADÃO. Minerais críticos podem adicionar R$ 192,1 bilhões ao PIB brasileiro, aponta estudo. São Paulo, 4 ago. 2026. Estudo da Amcham Brasil. Disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/minerais-criticos-pib-brasileiro-estudo-amcham. Acesso em: 2 nov. 2026.
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MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Estudo liderado pelo MME abre caminho para estratégia nacional que transforme potencial das terras raras em desenvolvimento e reindustrialização. Brasília: MME, 19 jun. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/2023-2026/estudo-liderado-pelo-mme-abre-caminho-para-estrategia-nacional-que-transforme-potencial-das-terras-raras-em-desenvolvimento-e-reindustrializacao. Acesso em: 2 nov. 2026.
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THE ECONOMIST. Os países — como o Brasil — que estão lucrando com a rivalidade entre EUA e China. Publicado em O Estado de S. Paulo, 1 nov. 2026. Disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/the-economist-os-paises-como-o-brasil-que-estao-lucrando-com-a-rivalidade-entre-eua-e-china. Acesso em: 2 nov. 2026.
Nadelson Costa Nogueira Júnior