Nadelson Costa Nogueira Jr.Consultoria Estratégica
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Regulação e Governança de IA

Política industrial de IA não é subsídio. O Brasil copiou a parte errada do modelo americano

Por Nadelson Costa Nogueira Júnior ·

Política industrial de IA não é subsídio. O Brasil copiou a parte errada do modelo americano
"O CHIPS and Science Act comprometeu cerca de US$ 280 bilhões. Nenhum dólar dele é um cheque para startup de inteligência artificial. É essa distinção — entre financiar a cadeia e financiar a empresa — que separa uma política industrial que funciona de um programa de incentivo que apenas parece com ela."

Política industrial de IA não é subsídio setorial. Não é um edital que distribui dinheiro entre empresas que usam inteligência artificial. Não é crédito subsidiado para quem adota modelo de linguagem. Não é renúncia fiscal para quem compra GPU.

Essa é a definição negativa, e ela importa porque o Brasil tem feito exatamente isso — enquanto o país que inspirou o vocabulário fez outra coisa.

O que o CHIPS Act realmente fez

O CHIPS and Science Act comprometeu aproximadamente US$ 280 bilhões. O valor costuma ser citado como prova de que os Estados Unidos apostaram alto em IA. A leitura é imprecisa em um ponto decisivo.

O relatório da London School of Economics sobre geopolítica da cadeia de IA, publicado em junho de 2026, registra o dado com precisão: os incentivos comerciais para IA nos Estados Unidos são canalizados principalmente por instrumentos amplos de política industrial e de financiamento de ciência, e não por subsídios específicos de IA.

O que o CHIPS Act financia é fabricação de semicondutor, pesquisa e desenvolvimento, polos tecnológicos regionais e formação de força de trabalho em STEM. O objetivo declarado é fortalecer as cadeias de suprimento relevantes para IA e a competitividade americana frente à China.

Nenhuma linha dele diz "pague empresas que usam IA". Todas as linhas dizem "construa a capacidade de a indústria existir".

A diferença é de objeto. Um programa que subsidia o usuário da tecnologia produz adoção. Um programa que financia a cadeia produz capacidade. O primeiro tem resultado visível em um ano e some quando o incentivo acaba. O segundo leva uma década e permanece.

O que o Brasil fez

O Brasil escolheu o caminho do incentivo tributário, e o fez com competência técnica.

O PADIS — Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores — foi reformulado pela Lei nº 14.968, de 11 de setembro de 2024, e regulamentado pelo Decreto nº 13.065, de 15 de julho de 2026, que instituiu o programa Brasil Semicon.

As diretrizes do decreto são, na letra, corretas: aumento da agregação de valor na produção nacional, elevação dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, incentivo às compras públicas de produtos de fabricação e tecnologia nacionais, e melhoria do ambiente de negócios com simplificação de importação e exportação.

Há execução real por trás disso. O BNDES aprovou R$ 143,3 milhões para a Zilia Technologies ampliar e modernizar a fábrica de Atibaia, que produz mais de 150 milhões de chips e 7 milhões de módulos por ano, com foco em memórias e armazenamento. A Finep abriu chamada pública de inovação em semicondutores e recebeu seis propostas somando R$ 104,4 milhões em demanda — pouco mais que o total disponibilizado. O CEITEC reposicionou seu plano estratégico para o ciclo 2026-2030 em direção a dispositivos de eletrônica de potência em carbeto de silício.

É política industrial coerente. E é política industrial de semicondutor, não de IA.

Onde a cópia erra o alvo

Aqui está o ponto que a comparação com os Estados Unidos revela, e que o debate brasileiro costuma perder.

O modelo americano funciona porque o objeto financiado — fabricação de chip, P&D, formação de força de trabalho — é a base sobre a qual a IA comercial se sustenta. Quem financia a base não precisa escolher vencedor: a base serve a todos.

O modelo brasileiro, quando migra do semicondutor para a IA, tende a financiar o adotante. E financiar o adotante tem três problemas que financiar a base não tem.

O primeiro é que o adotante já adotaria. A maior parte das empresas que usa IA no Brasil não esperou incentivo para usar — 95% das empresas brasileiras já usam IA generativa, segundo o AI Readiness Survey 2026 da Bain com a Microsoft. O subsídio chega depois da decisão, e paga por algo que aconteceria de qualquer forma.

O segundo é que o incentivo não resolve o gargalo. O mesmo levantamento aponta que 83% das empresas não têm frameworks adequados de governança de dados e apenas 34% contam com políticas específicas de proteção de dados para IA. Nenhum desses dois problemas se resolve com renúncia fiscal. Resolvem-se com documentação, inventário e trilha de decisão — trabalho, não dinheiro.

O terceiro é que o incentivo cria dependência de renovação. Um programa de subsídio ao adotante precisa ser renovado, ampliado e defendido politicamente a cada ciclo orçamentário. Um programa de infraestrutura, uma vez construído, existe.

O que a meta de 2% revela

Há um número que dimensiona a escolha brasileira com honestidade.

A meta oficial é dobrar a participação do Brasil na cadeia global de semicondutores, de 1% para 2%, até 2033. O mercado global deve alcançar US$ 738,6 bilhões em 2026. O país importou cerca de US$ 6 bilhões em semicondutores em 2025, e o faturamento da indústria nacional está projetado em US$ 2,5 bilhões para 2026.

Dobrar de 1% para 2% em sete anos é uma meta modesta. E é modesta porque é realista — o que é um mérito, não um defeito. A Softex registra que o país não reúne, no curto prazo, condições para disputar a fabricação de chips de ponta, e que a estratégia viável é inserção seletiva em nichos como design, prototipagem, sensores e encapsulamento.

O problema não está na meta. Está em tratar essa meta como se fosse a política de IA.

A distinção que organiza tudo

Política industrial de IA é o conjunto de decisões que constrói a capacidade de o país produzir, avaliar e governar sistemas de inteligência artificial. Ela inclui semicondutor, energia, infraestrutura de dados, formação de força de trabalho e capacidade de auditoria.

Subsídio ao adotante de IA é o repasse de recurso a quem já decidiu usar a tecnologia. Ele pode ter efeito distributivo, pode acelerar adoção em setores atrasados, pode ter justificativa social. Mas não é política industrial, e chamá-lo assim desloca o recurso do que constrói capacidade para o que apenas registra uso.

O Brasil tem a primeira política em curso, com o PADIS reformulado, o Brasil Semicon, o financiamento do BNDES e o reposicionamento do CEITEC. E tem, ao mesmo tempo, a tentação permanente de chamar de política de IA aquilo que é apenas incentivo.

Referências

BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL. BNDES aprova R$ 143,3 milhões para a Zilia Technologies ampliar produção de semicondutores no Brasil. Rio de Janeiro: BNDES, 10 jun. 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.bndes.gov.br/noticia/BNDES-aprova-R$-1433-milhoes-para-a-Zilia-Technologies-ampliar-producao-de-semicondutores-no-Brasil. Acesso em: 2 nov. 2026.

BAIN & COMPANY; MICROSOFT. AI Readiness Survey 2026. São Paulo: Bain & Company, 2026. Acesso em: 2 nov. 2026.

BRASIL. Decreto nº 13.065, de 15 de julho de 2026. Altera o Decreto nº 10.615, de 29 de janeiro de 2021, e fortalece o Brasil Semicon, ampliando incentivos do PADIS. Brasília: Presidência da República, 2026. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/decreto-n-13-065-de-15-de-julho-de-2026-719521081. Acesso em: 2 nov. 2026.

BRASIL. Lei nº 14.968, de 11 de setembro de 2024. Dispõe sobre a política industrial para o setor de tecnologias da informação e comunicação e para o setor de semicondutores. Brasília: Presidência da República, 2024. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/l14968.htm. Acesso em: 2 nov. 2026.

CENTRO NACIONAL DE TECNOLOGIA ELETRÔNICA AVANÇADA. Plano Estratégico — Ciclo 2026-2030. Porto Alegre: CEITEC, 2026. Disponível em: http://www.ceitec.gov.br/pt/Documentos%20Publicos/Plano%20Estrat%c3%a9gico%20Ciclo%202026%20-%202030.pdf. Acesso em: 2 nov. 2026.

FINANCIADORA DE ESTUDOS E PROJETOS. Finep recebe propostas para programa de inovação em semicondutores. Brasília: Finep, 4 set. 2026. Disponível em: https://www.opovo.com.br/noticias/economia/2026/09/04/finep-recebe-propostas-para-programa-de-inovacao-em-semicondutores.html. Acesso em: 2 nov. 2026.

LONDON SCHOOL OF ECONOMICS AND POLITICAL SCIENCE. Geopolitics of the AI Supply Chain: Control, Dependency, and National AI Ecosystems in the US, EU, China, and the UAE. Londres: LSE, jun. 2026. Disponível em: https://www.lse.ac.uk/asset-library/2026-06-01-tech-intaff-final.pdf. Acesso em: 2 nov. 2026.

MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO. PADIS — Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores. Brasília: MCTI, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/padis. Acesso em: 2 nov. 2026.

OBSERVATÓRIO SOFTEX. TICs 2026 — Caderno 3: inteligência artificial, semicondutores, ESG e internacionalização. Campinas: Softex, 17 set. 2026. Acesso em: 2 nov. 2026.

Nadelson Costa Nogueira Júnior