Estresse hídrico: quando o mundo aprende a ter sede
Por Nadelson Costa Nogueira Júnior ·

“A sede só tem sentido com a memória da água. A abundância só tem sentido com a consciência da falta.”
É o barulho da torneira que me acorda, todas as manhãs, sem que eu jamais tenha agradecido por ele. Basta girar um pequeno metal para que a vida escorra, mansa, sobre as nossas mãos — um gesto tão banal que nunca me pareceu um privilégio. Mas, para quase metade da humanidade, a água não vem da torneira: vem da espera, da distância, da incerteza.
Foi assim que a ONU, em seu mais recente diagnóstico, declarou que o planeta entrou em estado de "falência hídrica": cerca de 4 bilhões de pessoas — quase metade da população global — vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês por ano, e três quartos da humanidade, cerca de 6,1 bilhões de pessoas, habitam países onde o abastecimento de água doce é inseguro ou criticamente inseguro. Os próprios termos "estresse hídrico" e "escassez hídrica", alertam os pesquisadores, já não bastam — pois pressupõem a possibilidade de recuperação de sistemas que já não têm mais de onde se recuperar. Eu prefiro chamar pelo que é: a sede que a civilização aprendeu a ignorar.
A sede que não se vê
O estresse hídrico tem definição precisa. Segundo o indicador 6.4.2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, uma nação vive estresse hídrico quando a retirada de água doce ultrapassa 25% dos seus recursos hídricos renováveis. O estresse global estacionou em 18% desde 2023 — número que parece modesto até se lembrar que uma em cada dez pessoas no mundo vive sob estresse hídrico alto ou crítico, e que algumas regiões já ultrapassam 75%.
Ainda há 2,1 bilhões de pessoas sem acesso a água potável gerenciada com segurança, e 3,4 bilhões sem saneamento adequado. A Organização Meteorológica Mundial, no relatório "Estado dos Recursos Hídricos Globais 2024", revelou que apenas um terço das bacias hidrográficas do planeta registrou condições normais em 2023 — as demais vivem em desequilíbrio, oscilando entre a seca e o dilúvio. A água, que sempre pareceu infinita porque cai do céu, começou a cair do lado errado, na hora errada, na quantidade errada.
A genealogia da sede
A sede do mundo não nasceu de um único erro; é genealogia, como tudo o que se acumula. A agricultura consome cerca de 70% da água doce do planeta — boa parte desperdiçada em irrigação ineficiente. A indústria e a geração de energia bebem em seguida. A população cresce, as cidades incham, os aquíferos cedem mais depressa do que recarregam.
E o esgoto, esse filho esquecido da água que usamos, devolve aos rios o que não deveria ser devolvido: cerca de 80% das águas residuais do mundo retornam à natureza sem tratamento adequado. Sobre tudo isso, a crise climática impõe o seu regime de extremos — secas prolongadas de um lado, enchentes históricas do outro. Não é que falta água no mundo; falta água onde e quando a vida a espera.
O Brasil e a ilusão da abundância
Nós, brasileiros, fomos criados na ilusão da abundância. O país abriga cerca de 12% da água doce superficial do planeta, mas essa riqueza é profundamente desigual na sua distribuição — a água se concentra onde pouca gente está, e a gente se concentra onde pouca água resta.
Passou-se uma década da pior seca da história da Região Metropolitana de São Paulo, e o país segue em seca hidrológica prolongada: em 2024, a estiagem afetou 59% da Amazônia, com rios aos níveis recordes mais baixos, enquanto enchentes no Sul do país deixaram 183 mortos. O Cemaden segue alertando para déficits acumulados de recarga hídrica no Centro-Oeste e no Sudeste. A abundância, quando não é gerida, é apenas uma forma demorada de escassez.
Os grilhões da água
A transição para a segurança hídrica, porém, tem seus grilhões. Sem infraestrutura de armazenamento, captação e reúso, a chuva que sobra escorre para o mar como desperdício. Sem inclusão sanitária, a falta de água e de esgoto mata — melhorias nessa área poderiam salvar 1,4 milhão de vidas por ano, segundo a OMS, e cerca de 1.000 crianças menores de cinco anos por dia.
Sem governança, os 90% dos desastres naturais relacionados à água seguem pegando os governos de surpresa, ano após ano. E sem cooperação entre países que dividem os mesmos rios e aquíferos, a água corre o risco de se tornar, no século XXI, o que o petróleo foi no XX — motivo de disputa, e não de comunhão.
A arte de governar a água
A resposta, como quase sempre, é menos tecnológica do que política. O ODS 6 da Agenda 2030 — "água e saneamento para todos" — traçou o caminho, e há progresso: entre 2015 e 2024, 961 milhões de pessoas ganharam acesso a água potável gerenciada com segurança. Mas o ritmo é lento diante da sede que cresce.
Reúso de efluentes, irrigação inteligente, dessalinização onde fizer sentido, recuperação de mananciais e florestas, tarifas que punem o desperdício sem punir o pobre, educação hídrica desde a escola e governança de dados para decidir com precisão — a tecnologia existe; o que falta é vontade organizada. Para gestores públicos, a pergunta muda de lugar: deixa de ser "quanta água temos?" e passa a ser "como governamos a água que temos?".
E assim, eu me sento, às vezes, à beira da torneira, e fico admirando esse filete de água que corre sem pedir licença — lembrando de que lado deve estar a nossa consciência. Às vezes temo… Às vezes espero… Mas, sem dúvida, fica a certeza de que o sucesso dessa travessia dependerá menos da engenharia dos reservatórios e mais da qualidade da nossa memória: a de que a água é um bem comum, finito e vivo. Porque, no final, o que importa não é a água, mas a vida que ela transmite. A terra já aprendeu a ter sede. Falta-nos, a nós, provar que ainda sabemos beber com consciência.
Referências
- Organização das Nações Unidas — Relatório "Era da falência global da água" (2026): cerca de 4 bilhões de pessoas em escassez severa; 6,1 bilhões em países com abastecimento inseguro.
- ONU — Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6: Água Potável e Saneamento (un.org/sustainabledevelopment/water-and-sanitation) — estresse hídrico global de 18% desde 2023.
- Organização Meteorológica Mundial — "Estado dos Recursos Hídricos Globais 2024" (2025).
- ONU News — "Mundo tem 2,1 bilhões de pessoas sem água potável e 3,4 bilhões sem saneamento" (agosto de 2025).
- FAO — Indicador ODS 6.4.2: Nível de estresse hídrico (Portal de Dados dos ODS / AQUASTAT).
- Cemaden — Boletim Especial: Panorama das Condições de Seca no Brasil (outubro de 2025).
- The Nature Conservancy Brasil — "O que a nova escassez hídrica revela sobre o Brasil" (2025).
Nadelson Costa Nogueira Júnior