Sociedade 5.0: quando a tecnologia aprende a ser humana
Por Nadelson Costa Nogueira Júnior ·

“O vazio só tem sentido com o excesso de espaço. A tecnologia só tem sentido com o excesso de humanidade.”
Há, pendurado na parede da história, um porta-retratos com cinco fotografias: a do caçador, a do lavrador, a do operário, a do homem conectado… e, por fim, a nossa — a de uma humanidade que decide devolver à tecnologia a sua razão de ser: o próprio ser humano. Eu olho para esse retrato todas as manhãs, sem que a maioria dos meus dias perceba que ele muda.
Foi assim que o Japão, em 22 de janeiro de 2016, ao aprovar o 5º Plano Básico de Ciência e Tecnologia, desenhou o retrato do futuro: uma sociedade centrada no ser humano, na qual o desenvolvimento econômico e a solução dos problemas sociais são compatíveis entre si, mediante um sistema altamente integrado entre o ciberespaço e o espaço físico. Deram-lhe o nome de Sociedade 5.0. Em 2018, a Keidanren — a federação das maiores empresas japonesas — transformou o conceito de estratégia de Estado em agenda socioeconômica, no documento "Society 5.0 — Co-creating the Future". Os japoneses também a chamam de Super Smart Society. Eu prefiro chamá-la pelo que promete ser: a sociedade em que a máquina aprende a servir.
Cinco retratos de uma mesma humanidade
A numeração não é retórica; é genealogia. Cada estágio representa uma mudança estrutural na forma de produzir e de conviver.
- Sociedade 1.0 — a caçadora-coletora: a sobrevivência vinculada à natureza, ao instinto e ao território.
- Sociedade 2.0 — a agrícola: o cultivo, a sedentarização e o nascimento das comunidades.
- Sociedade 3.0 — a industrial: as máquinas, a energia e a produção em massa.
- Sociedade 4.0 — a informação: a conectividade, a internet e a economia do conhecimento.
- Sociedade 5.0 — a integração: a informação deixa de ser apenas acessada e passa a ser processada pela inteligência artificial para gerar valor no mundo real, com o ser humano no centro.
Na sociedade da informação, o humano buscava o conhecimento no ciberespaço e decidia sozinho. Na Sociedade 5.0, o ciberespaço devolve ao mundo físico resultados processados — e o humano passa a exercer o papel mais nobre de todos: supervisionar, criar e julgar.
O ciclo que devolve o futuro ao presente
O núcleo operacional da Sociedade 5.0 é o sistema ciber-físico. O ciclo funciona em quatro etapas integradas: 1) sensores e Internet das Coisas capturam dados do espaço físico — comportamentos, ambientes, máquinas, serviços; 2) esses dados são transmitidos ao ciberespaço, onde se acumulam em big data; 3) a inteligência artificial e a análise de dados processam as informações, simulam cenários e revelam padrões invisíveis ao olho humano; 4) os resultados retornam ao espaço físico como decisões, ações automatizadas ou recomendações. A diferença em relação à Sociedade 4.0 está justamente aqui: na sociedade da informação, o conhecimento esperava ser encontrado; na Sociedade 5.0, ele aprendeu a voltar para casa.
Da fábrica à praça
A Indústria 4.0 nasceu na Alemanha, em 2011, com foco na fábrica inteligente — automação, interoperabilidade e eficiência da cadeia produtiva. A Sociedade 5.0 absorve esse alicerce tecnológico, mas expande o escopo: deixa de ser um modelo setorial e passa a ser um modelo de civilização, aplicável à saúde, à mobilidade, à educação, à agricultura, às finanças e à administração pública. A UNESCO caracteriza o conceito como mais abrangente que a Quarta Revolução Industrial, justamente por fundir as fronteiras entre ciberespaço e espaço físico na vida cotidiana inteira — não apenas na produção. A fábrica foi o berço; a praça é o destino.
A tecnologia a serviço do abraço
Na saúde, diagnóstico assistido por inteligência artificial, telemedicina e monitoramento remoto de pacientes idosos — resposta direta ao envelhecimento populacional que motivou o conceito no Japão. Na mobilidade, veículos autônomos, logística inteligente e trânsito gerido por dados em tempo real. Na agricultura, sensores de solo e previsão de safras. Nas cidades e no governo, serviços públicos digitais, gêmeos digitais urbanos e decisões baseadas em dados. Na indústria e nas finanças, manutenção preditiva e serviços personalizados. Em todas elas, a pergunta muda de lugar: deixa de ser "que tecnologia adotar?" e passa a ser "qual problema social essa tecnologia resolve?".
Os grilhões da tecnologia
A transição, porém, tem seus grilhões. Sem infraestrutura e conectividade universal, o ciclo ciber-físico não escala. Sem inclusão digital, a tecnologia amplia as desigualdades que prometia curar. Com mais sensores e dados circulando, amplia-se a superfície de ataque e a exigência de proteção de dados pessoais. E decisões delegadas à inteligência artificial demandam auditoria, transparência e validação humana. A força de trabalho, por fim, precisa de requalificação contínua — pois a máquina já calcula, mas só o homem responde pelo resultado.
O Brasil e a arte de governar com dados
Para o setor público brasileiro, a Sociedade 5.0 não é um conceito distante — é uma agenda em curso. A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) estabeleceu as regras que sustentam qualquer iniciativa ciber-física, e a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA, 2021) organizou as diretrizes nacionais para o uso responsável da inteligência artificial. No Judiciário, a validação humana de atos classificados por sistemas de inteligência artificial, orientada pelas resoluções do Conselho Nacional de Justiça, é aplicação concreta da lógica da Sociedade 5.0: a máquina processa, o ser humano valida e responde pelo resultado. Para gestores públicos, modernização não é digitalizar processos existentes — é redesenhar serviços a partir das necessidades do cidadão, com dados como insumo, IA como instrumento e julgamento humano como salvaguarda final.
E assim, eu me sento, às vezes, diante do teclado, e fico admirando esse retrato da Sociedade 5.0 — lembrando de que lado deve estar a tecnologia. Às vezes temo… Às vezes espero… Mas, sem dúvida, fica a certeza de que o sucesso dessa transição dependerá menos da sofisticação dos algoritmos e mais da qualidade da nossa humanidade: inclusão digital, proteção de dados, supervisão humana e formação de pessoas. Porque, no final, o que importa não é a tecnologia, mas a emoção que ela transmite. A máquina já aprendeu a pensar. Falta-nos, a nós, provar que ainda sabemos sentir.
Referências
- Cabinet Office, Government of Japan — Society 5.0. Disponível em: https://www8.cao.go.jp/cstp/english/society5_0/index.html
- Keidanren — Society 5.0: Co-creating the Future, Tóquio, 2018.
- UNESCO — Japan pushing ahead with Society 5.0 to overcome chronic social challenges, Paris, 2019.
- Fukuyama, M. — Society 5.0: Aiming for a New Human-Centered Society. Japan SPOTLIGHT, Tóquio, 2018.
- Hitachi-UTokyo Laboratory — Society 5.0: A People-centric Super-smart Society. Springer, Singapura, 2020.
Nadelson Costa Nogueira Júnior