Nadelson Costa Nogueira Jr.Consultoria Estratégica
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Regulação e Governança de IA

Controle de exportação funciona para chip e não funciona para modelo. O que sobra para quem importa modelo e exporta minério

Por Nadelson Costa Nogueira Júnior ·

Controle de exportação funciona para chip e não funciona para modelo. O que sobra para quem importa modelo e exporta minério
"O Brasil não reúne, no curto prazo, condições para disputar a fabricação de chips de ponta. A estratégia indicada é uma inserção seletiva em nichos compatíveis com as capacidades nacionais, como design, prototipagem, sensores e encapsulamento."

A frase é do estudo TICs 2026, do Observatório Softex, divulgado em setembro. Não é uma avaliação de adversário nem de consultoria estrangeira interessada em vender dependência. É o diagnóstico de uma entidade do próprio setor de tecnologia brasileiro, sobre a posição do país na cadeia global de semicondutores.

Ela importa porque desloca a pergunta. O debate sobre política industrial de IA no Brasil costuma começar pela pergunta errada — como competir na fronteira — e termina na resposta que ninguém quer dar. A pergunta certa é outra: o que um país faz quando o instrumento que os outros usam para controlar a tecnologia não alcança a camada da qual ele depende.

O que o controle de exportação alcança

Semicondutor é objeto físico. Ele se conta, se rastreia, se bloqueia na alfândega. É por isso que o regime de controle de exportação funciona: um acelerador que sai de Taiwan e não chega a Shenzhen é um acelerador que não existe para quem precisava dele.

O dado que dimensiona a assimetria é conhecido. O mercado global de semicondutores deve alcançar US$ 738,6 bilhões em 2026. O Brasil importou cerca de US$ 6 bilhões em semicondutores em 2025, e o faturamento da indústria nacional está projetado em US$ 2,5 bilhões para 2026.

A meta oficial é dobrar a participação brasileira na cadeia global, de 1% para 2%, até 2033. É uma meta modesta e realista, e ela é modesta justamente porque reconhece o ponto de partida.

O que o controle de exportação faz, nesse arranjo, é definir quem pode comprar o quê. E o Brasil, como importador de 70% do que consome, é tomador dessa decisão, não participante dela.

O que o controle de exportação não alcança

Aqui está a inversão que reorganiza o debate.

Um modelo de IA não é objeto físico. É um conjunto de pesos que se copia, se ajusta, se redistribui e se reimplementa. O Bruegel registrou em setembro de 2026 o que qualquer pessoa que trabalha com modelos sabe na prática: enquanto semicondutores podem ser contados e as exportações interrompidas — ainda que com vazamento considerável —, as capacidades dos modelos de IA se difundem pela fronteira, e nenhum regime de exportação concebido até hoje conseguiu contê-las.

Isso significa que o instrumento mais poderoso da política econômica de IA — o controle de exportação de hardware — protege a camada que o Brasil não produz e não protege a camada que o Brasil consome.

O país importa modelo. E modelo não tem alfândega.

A escolha que os Estados Unidos impõem

Há uma dimensão geopolítica que o Brasil precisa enfrentar com precisão, porque ela chega na forma de uma escolha binária que não é do interesse brasileiro.

Os Estados Unidos pressionam aliados a não endossar o que Washington classifica como iniciativas duplicativas — leitura dirigida à China. Países que assinaram o AI Opportunity Statement foram sinalizados de que não poderiam apoiar, ao mesmo tempo, arranjos concorrentes.

Para o Brasil, isso cria um problema de posicionamento. O país tem interesse em cooperar com os dois lados: importa tecnologia americana, tem na China o maior parceiro comercial e recebeu cerca de US$ 6 bilhões em investimento chinês no ano passado — mais do que de qualquer outro país.

A escolha binária não é neutra. Ela custa.

O que a estratégia de nicho significa na prática

Volte à frase da Softex. "Inserção seletiva em nichos compatíveis com as capacidades nacionais, como design, prototipagem, sensores e encapsulamento."

Isso não é uma rendição. É uma leitura correta de vantagem comparativa em uma cadeia em que a fronteira exige investimento de dezenas de bilhões de dólares e uma base de engenharia que o país não tem.

E há política pública em curso que corresponde a essa leitura. O PADIS foi reformulado pela Lei nº 14.968/2024 e pelo Decreto nº 13.065/2026, que instituiu o programa Brasil Semicon com diretrizes de agregação de valor na produção nacional e aumento do investimento em PD&I. O BNDES aprovou R$ 143,3 milhões para a Zilia Technologies ampliar a fábrica de Atibaia, que produz mais de 150 milhões de chips e 7 milhões de módulos por ano, com foco em memórias e armazenamento. A Finep abriu chamada pública e recebeu seis propostas somando R$ 104,4 milhões em demanda — pouco mais que o total disponibilizado.

O CEITEC, estatal de semicondutores, reposicionou seu plano estratégico para o ciclo 2026-2030 em direção a dispositivos de eletrônica de potência baseados em carbeto de silício, um semicondutor de maior eficiência energética que o silício convencional. É uma aposta em nicho, não em fronteira.

Onde a estratégia de nicho encontra seu limite

Aqui está o ponto que o próprio autor não resolve, e que vale registrar em vez de contornar.

A estratégia de inserção seletiva em nichos é correta para semicondutores. Mas ela não responde à pergunta que o país realmente precisa responder: como um importador de modelo constrói capacidade de governança sobre a tecnologia que consome.

Design, prototipagem, sensores e encapsulamento são elos da cadeia de hardware. Nenhum deles cria capacidade de avaliar, auditar ou substituir um modelo de linguagem importado. Um país pode dominar o encapsulamento de chips e continuar sem saber o que o modelo que usa faz com os dados que recebe.

A política industrial de semicondutores e a política de governança de IA são duas políticas distintas, e o Brasil as trata como se fossem uma. A primeira tem instrumento, meta e financiamento. A segunda tem, por ora, apenas a agenda de fiscalização da ANPD e o art. 20 da LGPD.

O que sobra para quem importa modelo e exporta minério

A posição brasileira na cadeia de IA tem três camadas, e o país ocupa a primeira e a terceira, sem ocupar a do meio.

Na base, o país exporta o insumo físico: terras raras, nióbio, lítio, minerais críticos que alimentam a fabricação de chips e de equipamentos. Detém cerca de 23,1% dos recursos globais conhecidos de terras raras e a segunda maior reserva do planeta.

No topo, o país importa o produto acabado: modelo, nuvem, capacidade computacional.

No meio — a camada de transformação, que é onde o valor se concentra — o país tem presença marginal.

Essa é a estrutura que a política econômica precisa enfrentar. Não é uma estrutura de escassez: é uma estrutura de posição. E posição se altera com política, não com discurso.

Conclusão

O controle de exportação é um instrumento eficaz para a camada que o Brasil não produz e ineficaz para a camada da qual ele depende. Isso não é uma falha do instrumento — é uma característica do objeto. Chip se conta; modelo se copia.

O Brasil fez a escolha correta ao apostar em nichos de semicondutor em vez de fronteira. O PADIS reformulado, o Brasil Semicon, o financiamento do BNDES e o reposicionamento do CEITEC são política industrial coerente com a posição real do país na cadeia.

Mas há um contra-argumento que essa estratégia não responde, e é honesto nomeá-lo: a política de semicondutores não constrói capacidade de governar o modelo importado. Um país pode ser competente em encapsulamento e continuar sem saber o que o modelo faz com o dado do cidadão. A política industrial resolve a posição na cadeia de hardware. A posição na cadeia de software continua dependendo de regulação, de avaliação de impacto e de capacidade de auditoria — e nenhuma dessas três coisas se compra com incentivo tributário.

Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE SEMICONDUTORES. Dados do setor de semicondutores no Brasil. São Paulo: ABISEMI, 2026. Citada por Finep em chamada pública de inovação em semicondutores. Acesso em: 2 nov. 2026.

BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL. BNDES aprova R$ 143,3 milhões para a Zilia Technologies ampliar produção de semicondutores no Brasil. Rio de Janeiro: BNDES, 10 jun. 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.bndes.gov.br/noticia/BNDES-aprova-R$-1433-milhoes-para-a-Zilia-Technologies-ampliar-producao-de-semicondutores-no-Brasil. Acesso em: 2 nov. 2026.

BRASIL. Decreto nº 13.065, de 15 de julho de 2026. Altera o Decreto nº 10.615, de 29 de janeiro de 2021, e fortalece o Brasil Semicon, ampliando incentivos do PADIS. Brasília: Presidência da República, 2026. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/decreto-n-13-065-de-15-de-julho-de-2026-719521081. Acesso em: 2 nov. 2026.

BRASIL. Lei nº 14.968, de 11 de setembro de 2024. Dispõe sobre a política industrial para o setor de tecnologias da informação e comunicação e para o setor de semicondutores. Brasília: Presidência da República, 2024. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/l14968.htm. Acesso em: 2 nov. 2026.

BRUEGEL. Tough choices ahead as the US pushes a global artificial-intelligence divide. Bruxelas: Bruegel, 7 set. 2026. Disponível em: https://www.bruegel.org/first-glance/tough-choices-ahead-us-pushes-global-artificial-intelligence-divide. Acesso em: 2 nov. 2026.

CENTRO NACIONAL DE TECNOLOGIA ELETRÔNICA AVANÇADA. Plano Estratégico — Ciclo 2026-2030. Porto Alegre: CEITEC, 2026. Disponível em: http://www.ceitec.gov.br/pt/Documentos%20Publicos/Plano%20Estrat%c3%a9gico%20Ciclo%202026%20-%202030.pdf. Acesso em: 2 nov. 2026.

FINANCIADORA DE ESTUDOS E PROJETOS. Finep recebe propostas para programa de inovação em semicondutores. Brasília: Finep, 4 set. 2026. Disponível em: https://www.opovo.com.br/noticias/economia/2026/09/04/finep-recebe-propostas-para-programa-de-inovacao-em-semicondutores.html. Acesso em: 2 nov. 2026.

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THE ECONOMIST. Os países — como o Brasil — que estão lucrando com a rivalidade entre EUA e China. Publicado em O Estado de S. Paulo, 1 nov. 2026. Disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/the-economist-os-paises-como-o-brasil-que-estao-lucrando-com-a-rivalidade-entre-eua-e-china. Acesso em: 2 nov. 2026.

Nadelson Costa Nogueira Júnior