Meio por cento: por que Índia, Indonésia e Irã ainda não são um bloco
Por Nadelson Costa Nogueira Júnior ·

"Três países que somam quase um quinto da população mundial, controlam rotas de energia e concentram reservas minerais estratégicas continuam negociando individualmente. A explicação não está na falta de interesse comum. Está no fato de que cada um deles tem uma moeda diferente para trocar."
A Índia compra petróleo russo com desconto e vende refinado para a Europa. A Indonésia proíbe a exportação de minério bruto para forçar a instalação de refinarias dentro do país. O Irã exporta quase tudo o que consegue por rotas que contornam sanções.
Os três têm em comum o que qualquer análise de bloco econômico procura: população somada relevante, recursos naturais, posição geográfica e descontentamento com a ordem vigente. E os três continuam sem qualquer arranjo coordenado entre si.
O que um bloco exige
Antes de explicar a ausência, vale definir o objeto. Um bloco econômico não é uma coincidência de interesses. É um conjunto de regras que os membros aceitam cumprir mesmo quando a regra contraria o interesse imediato de um deles.
Isso exige três coisas que nenhum dos três países tem em relação aos outros dois.
Preferência tarifária recíproca. Um bloco real abre mercado para o parceiro em condições melhores que as oferecidas a terceiros. Índia, Indonésia e Irã não têm acordo comercial entre si que faça isso.
Mecanismo de solução de controvérsia. Sem instância que obrigue o membro a cumprir, o arranjo é declaração de intenção. Nenhum dos três aceitaria arbitragem vinculante com os outros dois.
Moeda ou sistema de pagamento comum. Aqui está o obstáculo decisivo, e ele é técnico antes de ser político.
O problema da moeda
Um bloco comercial precisa de um meio de liquidar transações que não dependa de uma terceira jurisdição. A Índia tem o rupee, moeda com controles de capital e convertibilidade limitada. A Indonésia tem a rupia, com restrições próprias. O Irã tem o rial, sob sanções que o excluem do sistema financeiro internacional.
Nenhuma das três moedas serve como unidade de conta para as outras duas. E nenhuma das três aceitaria usar a moeda do parceiro como referência.
Isso não é um detalhe operacional. É a razão pela qual blocos comerciais reais se constroem em torno de uma âncora monetária — o dólar no caso do comércio intra-asiático, o euro na União Europeia — ou de um arranjo de compensação institucionalizado, como o que a China vem construindo com parceiros bilaterais.
Sem isso, cada transação entre Índia e Indonésia passa pelo dólar, e portanto pela jurisdição americana. O que anula a principal vantagem que um bloco ofereceria aos três: reduzir exposição a essa jurisdição.
O que cada um quer, e por que não coincide
A segunda razão da ausência de bloco é mais simples e mais decisiva: os três querem coisas diferentes da mesma ordem internacional.
A Índia quer ser aceita. Sua estratégia é de participação, não de ruptura. Integra o Quad com Estados Unidos, Japão e Austrália, negocia acordo comercial com a União Europeia, participa do G20 como voz do Sul Global e mantém relação com a Rússia por necessidade energética. Um bloco com o Irã sancionado comprometeria todas essas frentes.
A Indonésia quer ser fornecedora. Sua política de downstream mineral — proibir a exportação de níquel bruto para obrigar o processamento interno — é uma estratégia de inserção na cadeia global de baterias e veículos elétricos, não de confronto com ela. O comprador que a Indonésia quer atrair é justamente o investidor ocidental, japonês e coreano.
O Irã quer sobreviver. Sua política externa é de contorno de sanções, e qualquer arranjo que o exponha mais é custo, não benefício.
Os três se beneficiam de uma ordem multipolar. Mas apenas um deles — o Irã — tem incentivo para pagar o preço de antecipá-la.
O que existe no lugar do bloco
A ausência de bloco não significa ausência de coordenação. Significa que a coordenação acontece em formatos que não exigem compromisso vinculante.
O mais visível é o BRICS ampliado, que reúne Índia e Irã — e a Indonésia foi admitida como membro pleno em 2025. É um fórum, não um bloco: não tem tarifa comum, não tem arbitragem, não tem moeda. Produz declarações conjuntas e fotos de cúpula.
Há também arranjos bilaterais que fazem o trabalho que o bloco faria, em escala menor. A Índia compra petróleo iraniano quando as sanções permitem e o russo quando não. A Indonésia negocia investimento com a China para o processamento de níquel. O Irã usa a Índia como rota de comércio com a Ásia Central pelo porto de Chabahar.
Cada um desses arranjos é funcional. Nenhum deles é um bloco, porque nenhum exige que os participantes abram mão de soberania decisória.
O meio por cento
O título deste texto vem de um número que resume a assimetria.
Os três países somam cerca de um quinto da população mundial. E respondem, juntos, por uma fração muito pequena do comércio intrarregional da própria região — algo próximo de meio por cento do comércio total de cada um.
Compare com o comércio da Índia com a União Europeia, com os Estados Unidos ou com a China. Em todos os casos, o volume é maior do que a soma do comércio com os outros dois.
Isso significa que o bloco não existe porque não é necessário. Cada um dos três já tem, nos mercados que lhe interessam, um parceiro maior do que os outros dois somados. A coordenação entre eles não resolveria nenhum problema que a relação com esses parceiros maiores não resolva melhor.
Conclusão
Índia, Indonésia e Irã não formam um bloco por três razões que se somam: não têm moeda comum nem mecanismo de compensação, querem coisas incompatíveis da ordem internacional e já têm parceiros comerciais maiores do que os outros dois somados.
O que existe no lugar é coordenação sem compromisso — fóruns como o BRICS ampliado, arranjos bilaterais funcionais e rotas de comércio que contornam o sistema financeiro sem substituí-lo.
A pergunta que o gestor público brasileiro deveria responder esta semana não é se o Brasil deveria se alinhar a esse bloco que não existe. É se o país tem, hoje, um arranjo de pagamento com qualquer um dos três que dispense o dólar. Se a resposta for não, a discussão sobre bloco do Sul Global continua sendo conversa de fórum.
Referências
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ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO. How economic security is shaping science, technology and industrial policy. Paris: OECD, 28 set. 2026. Disponível em: https://www.oecd.org/en/blogs/2026/09/how-economic-security-is-shaping-science-technology-and-industrial-policy.html. Acesso em: 2 nov. 2026.
THE CONVERSATION. Terras raras: por que o Brasil está no centro da disputa global por minerais críticos. 9 set. 2026. Disponível em: https://theconversation.com/terras-raras-por-que-o-brasil-esta-no-centro-da-disputa-global-por-minerais-criticos-291488. Acesso em: 2 nov. 2026.
THE ECONOMIST. Os países — como o Brasil — que estão lucrando com a rivalidade entre EUA e China. Publicado em O Estado de S. Paulo, 1 nov. 2026. Disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/the-economist-os-paises-como-o-brasil-que-estao-lucrando-com-a-rivalidade-entre-eua-e-china. Acesso em: 2 nov. 2026.
Nadelson Costa Nogueira Júnior