Quem controla o gargalo controla a economia: minerais críticos, chips e o novo mapa do poder
Por Nadelson Costa Nogueira Júnior ·

"O Brasil tem 21 projetos de terras raras, uma mina em produção e nenhuma refinaria. A frase resume o país inteiro na nova geografia do poder econômico — e explica por que a disputa entre Estados Unidos e China não é sobre quem tem o minério."
Em 4 de abril de 2025, a China impôs controle de exportação a sete elementos de terras raras pesadas. Em outubro do mesmo ano, ampliou as restrições para alcançar produtos fabricados fora do país que contivessem terras raras de origem chinesa ou tivessem sido produzidos com tecnologia chinesa.
As montadoras reduziram produção. Algumas pararam linhas temporariamente. A Agência Internacional de Energia estima que cerca de US$ 6,5 trilhões em produção anual a jusante, fora da China, ficaram expostos — em automotivo, alta tecnologia, defesa e energia.
O dado que explica o episódio não é a reserva. É a planta.
O gargalo não é onde o minério está
A China responde por cerca de 69% da produção mineral de terras raras. Poderia ser um número administrável. Mas ela concentra aproximadamente 91% da separação e do refino, cerca de 94% da fabricação de ímãs e algo próximo de 99% do processamento de terras raras pesadas.
A diferença entre 69% e 91% é o objeto deste texto. Minério bruto não entra em motor elétrico, turbina eólica, míssil ou disco rígido. Precisa passar por separação por solventes, refino, metalização e fabricação de ímã. É nessa passagem que o valor se cria e o poder se concentra.
Quem controla a mina controla o preço da commodity. Quem controla a refinaria controla quem consegue produzir.
O que a AIE projeta para 2035
O Global Critical Minerals Outlook 2026, publicado em julho, traz a projeção que dimensiona o problema.
Projetos minerais anunciados fora do principal produtor poderiam entregar cerca de 50 mil toneladas de capacidade até 2035. A capacidade de refino e separação planejada, no mesmo horizonte, fica abaixo de 40 mil toneladas — concentrada em Malásia e Estados Unidos, seguidos por Austrália, Vietnã, Japão, Reino Unido, França e Estônia.
A jusante, a restrição é ainda maior: metais, ligas e ímãs de terras raras somam apenas cerca de 18 mil toneladas em base de conteúdo de terras raras.
Traduzindo: mesmo que todo projeto mineral anunciado no mundo se concretize, a capacidade de refino fora da China cobriria cerca de dois terços da produção mineral esperada em 2035. E a de ímãs, apenas um terço.
A dependência não está sendo resolvida. Está sendo deslocada da mina para a planta — e a planta é mais difícil de construir.
O caso brasileiro: 21 projetos, uma mina, nenhuma refinaria
O Brasil é o retrato mais nítido dessa assimetria, e o dado é de um estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, elaborado por demanda do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e publicado em 2026.
O país não dispõe de planta de separação de terras raras por extração por solventes em operação industrial.
Tem 21 projetos no portfólio. Tem uma mina em produção comercial — Serra Verde, em Minaçu, Goiás, operação de Pela Ema, a única com concessões de lavra de terras raras no país. E não tem a etapa que agrega valor.
O Brasil detém cerca de 23,1% dos recursos globais conhecidos de terras raras e a segunda maior reserva do planeta, com aproximadamente 21 milhões de toneladas contra 44 milhões da China. Exporta gadolínio para o mercado chinês — o óxido usado em ressonância magnética. E importa de volta o ímã.
O que a política pública fez, e o que ela ainda não fez
O país não está parado. Em setembro de 2026, o Senado aprovou e o governo sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, pela Lei nº 15.506/2026, com fundo garantidor — a União participa como cotista no limite de R$ 2 bilhões — e crédito tributário de R$ 5 bilhões para estimular o processamento de minérios no país.
A diretriz central é correta: adensar a cadeia, reduzir a dependência de exportação de matéria-prima e ampliar pesquisa mineral, beneficiamento, transformação e industrialização.
E há um movimento empresarial real. Em abril de 2026, a USA Rare Earth anunciou a compra da brasileira Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, com o objetivo declarado de construir suprimento fora da Ásia. Em outubro, o governo brasileiro anunciou como certa a instalação da primeira grande planta industrial de separação e processamento de terras raras no país — mas os documentos apresentados pela Lynas Rare Earths ao mercado australiano falam em "potencial" para desenvolver o processamento no Brasil, sem valor, localização, capacidade ou cronograma definidos.
O que está efetivamente contratado é a aquisição da Meteoric Resources, controladora do projeto mineiro em Minas Gerais. A refinaria, até aqui, é intenção.
A diplomacia que tenta comprar o gargalo
A dimensão geopolítica do problema produziu, em 2026, uma arquitetura nova de acordos — e ela é mais reveladora do que qualquer discurso.
Os Estados Unidos assinaram dez outros marcos ou memorandos de minerais críticos em cinco meses e concluíram negociações com dezessete outros países. Em fevereiro de 2026, o Representante Comercial americano abriu consulta pública para desenhar o Acordo de Comércio de Minerais Críticos, um acordo plurilateral vinculante com mecanismos de preço, padrões comuns, regras de investimento e coordenação em disrupção de mercado.
Com o Brasil, a pressão foi direta. Em fevereiro, autoridades americanas enviaram proposta de acordo bilateral. Em março, o embaixador americano declarou que havia uma proposta federal em discussão, enquanto assinava separadamente um acordo com o estado de Goiás. Reportagem do New York Times registrou que a proposta seguia sem resposta do governo brasileiro.
O padrão é consistente: quando o acordo federal não avança, o acordo subnacional avança. E o objeto de todos eles é o mesmo — garantir acesso ao elo que falta.
O que o Brasil tem de fato para negociar
Aqui está a parte que a narrativa de "potência mineral" costuma esconder.
O Brasil tem reserva, tem mina e tem mandato político para negociar. Não tem refinaria, não tem tecnologia de separação em escala e não tem, hoje, capacidade de transformar a posição geológica em posição de barganha.
Isso não é uma posição fraca. É uma posição específica, e ela tem uma consequência prática: o país negocia acesso ao minério, não acesso ao mercado de ímãs. Quem compra a mina compra a reserva. Quem constrói a refinaria compra a cadeia.
E há um detalhe que a política de 2026 acertou ao reconhecer: o crédito tributário de R$ 5 bilhões é destinado ao processamento, não à extração. É a primeira vez que o instrumento aponta para o elo certo.
O mapa do poder que se desenha
Junte as peças e o desenho aparece.
A China controla 91% da separação e refino, 94% dos ímãs e 99% das terras raras pesadas. Suspendeu parte dos controles até novembro de 2026 — prazo que expira neste mês. Em janeiro de 2026, endureceu controles sobre bens de uso dual destinados ao Japão.
Os Estados Unidos constroem uma arquitetura de acordos vinculantes com mecanismos de preço, financiam capacidade própria e pressionam parceiros a escolher. A USA Rare Earth levantou cerca de US$ 1,6 bilhão em financiamento e apoio acionário do governo americano, além de aproximadamente US$ 2 bilhões em fontes privadas. A Lynas assinou carta de intenção vinculante com o Departamento de Guerra americano para acordo de suprimento de quatro anos.
O Brasil tem 23,1% dos recursos, uma mina, 21 projetos e uma lei nova.
O poder, nesse mapa, não está em quem tem o minério. Está em quem tem a planta que transforma o minério em ímã — e essa planta leva mais tempo para construir do que qualquer acordo leva para ser assinado.
Conclusão
A disputa por minerais críticos não é uma disputa por reservas. É uma disputa por capacidade de processamento, e o Brasil entrou nela com o ativo errado na mão.
O país tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, 21 projetos, uma mina em produção e uma política nacional sancionada em setembro com R$ 5 bilhões em crédito para processamento. E não tem uma única planta de separação por solventes em operação industrial — o dado do próprio governo, no estudo do CGEE.
A pergunta que o gestor público brasileiro deveria responder esta semana não é quantas toneladas o país tem no subsolo. É quantas plantas de separação estarão em operação em 2035, quem serão os sócios delas, e qual o limite de participação estrangeira que a política aceita no elo que ela diz querer dominar.
Enquanto essa resposta não existir, o Brasil continuará exportando óxido de gadolínio e importando ímã — e a distância entre 69% e 91% continuará sendo o lugar onde o poder econômico se decide.
Referências
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Nadelson Costa Nogueira Júnior