Representação sem espelho: quem compõe o Brasil e quem compõe o Congresso
Por Nadelson Costa Nogueira Júnior ·

O contraste que estrutura o problema
Um país em que 55,5% da população se declara preta ou parda elegeu, em outubro de 2026, uma Câmara dos Deputados com 26,3% de parlamentares negros. A distância entre essas duas cifras — quase trinta pontos percentuais — é o dado mais eloquente sobre a qualidade da nossa representação política. Não se trata de um desvio marginal, corrigível por ajuste fino. Trata-se de uma estrutura recorrente, que se reproduz eleição após eleição e que se combina com um segundo filtro, ainda menos discutido: o filtro ocupacional.
O Congresso Nacional não é apenas mais branco do que o Brasil. É, sobretudo, mais empresarial e mais juridicamente qualificado do que a sociedade que o elege. Essa dupla distorção — racial e de classe — tem consequências concretas sobre a agenda legislativa, sobre a alocação de recursos públicos e sobre a legitimidade social das decisões que o Parlamento produz. Compreendê-la com dados é o primeiro passo para enfrentá-la com política pública.
A base demográfica: o que o Censo 2022 revelou
O Censo Demográfico 2022 do IBGE consolidou uma virada histórica: pela primeira vez desde 1872, a população parda (92,1 milhões de pessoas, 45,3%) superou a branca (88,3 milhões, 43,5%). A população preta chegou a 20,7 milhões (10,2%), a indígena a 1,2 milhão pelo quesito cor ou raça — 1,7 milhão quando se considera também o critério "se considera indígena", o equivalente a 0,8% — e a amarela a 850 mil (0,4%).
Somados, pretos e pardos formam 55,5% da população brasileira. Esse é o número de referência para qualquer análise de representatividade racial no país, e é também o parâmetro que o próprio Tribunal Superior Eleitoral adota em seus relatórios sobre distribuição de recursos de campanha.
A composição racial, porém, não é a única dimensão relevante. O Censo 2022 também expôs uma estratificação educacional persistente: entre pessoas de 25 anos ou mais, 25,8% das brancas concluíram o ensino superior, contra 12,3% das pretas. A escolaridade é o principal passaporte para as ocupações de prestígio — e é justamente nelas que se recrutam os parlamentares.
A pirâmide ocupacional: quem é empresário, quem é liberal, quem é trabalhador
A pergunta sobre "empresários, profissionais liberais e trabalhadores" exige uma precisão metodológica que o debate público costuma dispensar. O Censo não trabalha com a categoria "profissional liberal"; trabalha com posição na ocupação. E o retrato que ela oferece é de uma sociedade eminentemente assalariada.
Segundo o Censo 2022, 69,2% da população ocupada era formada por empregados — percentual que caiu quase cinco pontos em relação a 2010. Os trabalhadores por conta própria somavam 26,7%, e os empregadores, apenas 3,3%. Ou seja: a categoria econômica que o senso comum associa a "empresário" representa um trigésimo da força de trabalho brasileira.
Essa é uma informação decisiva para o argumento deste artigo. Quando se diz que o Congresso é dominado por empresários, não se está descrevendo um espelho da sociedade empreendedora brasileira — está se descrevendo uma elite econômica que ocupa um espaço desproporcional ao seu peso demográfico.
A distribuição racial dentro dessa pirâmide é ainda mais reveladora. O estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, do IBGE, mostra que, em 2021, pessoas brancas ocupavam 69,0% dos cargos gerenciais, contra 29,5% de pretos e pardos. Na faixa de rendimento mais elevada, apenas 14,6% dos ocupados em funções de gestão eram negros. Entre os proprietários de grandes estabelecimentos agropecuários — aqueles com mais de dez mil hectares —, 79,1% eram brancos e 19,0% pretos ou pardos.
O dado sobre empreendedorismo, porém, impõe uma nuance importante. Segundo o Sebrae, 52,4% dos donos de negócio no Brasil são negros — são cerca de 15,8 milhões de empreendedores pretos e pardos. O Brasil tem, portanto, maioria negra entre quem empreende. O problema não é a ausência de empresários negros; é a estrutura de capital do empresariado negro. Os empreendedores negros ganham, em média, 46,5% menos que os brancos, e 80,1% dos donos de negócio situados na faixa de renda per capita até o corte do Bolsa Família são negros.
A conclusão é desconfortável e precisa: existe empresariado negro no Brasil, mas ele é majoritariamente de subsistência, não de acumulação. E é o empresariado de acumulação — com acesso a crédito, a federações patronais, a financiamento de campanha — que chega ao Parlamento.
Os números de renda confirmam a assimetria: em 2022, a população ocupada branca ganhava, em média, 64,2% mais que a preta ou parda. A pobreza alcançava 18,6% dos brancos, 34,5% dos pretos e 38,4% dos pardos.
O retrato da 57ª legislatura (2023–2027)
A legislatura que se encerra em janeiro de 2027 foi saudada, à época da eleição, como a mais diversa da história. E era, em termos relativos. A Câmara empossada em fevereiro de 2023 reuniu 135 deputados negros — 108 pardos e 27 pretos —, o equivalente a 26,3% da Casa, além de 91 mulheres (17,7%), quatro a cinco indígenas e três amarelos.
O Senado eleito em 2022 ofereceu um retrato ainda mais excludente. Levantamento do Inesc a partir de dados do TSE apontou que a Casa era composta por 61% de homens brancos, 16% de homens pardos, 11% de mulheres brancas, 7% de homens pretos, 3% de homens indígenas, 1% de mulheres pardas e 1% de não identificados. Somados, negros de ambos os sexos não chegavam a um quarto da representação.
No plano ocupacional, o diagnóstico do DIAP para a legislatura 2023–2027 apontava os advogados (104) e os empresários (84) como as categorias mais numerosas, seguidas por professores, produtores rurais, médicos e administradores de empresas. Havia ainda 41 profissionais da área de segurança e militar.
A 58ª legislatura: o que mudou e o que permaneceu
Os resultados de 4 de outubro de 2026 permitem uma comparação precisa — e o balanço é de estagnação racial com leve avanço de gênero.
A nova Câmara, que toma posse em 1º de fevereiro de 2027, terá 374 deputados brancos (72,9%), 135 negros (26,3%), três indígenas e um amarelo. O número absoluto de parlamentares negros é idêntico ao de 2022; como a Casa tem o mesmo tamanho, o percentual também não mudou. A proporção de brancos subiu de 71,3% para 72,9%, refletindo a redução de indígenas e amarelos. Dos 135 deputados negros, 77 são reeleitos — 57% do grupo.
As mulheres avançaram de 90 para 109 deputadas, o melhor resultado histórico.
No Senado, a renovação de 54 das 81 cadeiras produziu uma Casa ligeiramente menos branca: 56 senadores brancos (69,1%), 20 pardos (24,7%), três pretos (3,7%), um indígena (1,2%) e um caso sem informação. São 18 mulheres e 63 homens.
Uma variável institucional explica a lentidão dessas mudanças: a renovação da Câmara foi de apenas 35,67% — 183 deputados de primeiro mandato —, o menor índice desde 1998 e inferior aos 39,38% de 2022 e aos 47,37% de 2018. Dos 437 deputados que tentaram a reeleição, 296 obtiveram êxito. Um Parlamento que se renova pouco tende a reproduzir sua própria composição, e a composição que ele reproduz é a que se formou décadas atrás.
O perfil ocupacional, por sua vez, mudou — e na direção oposta à diversificação. O levantamento do DIAP para a próxima legislatura aponta 147 empresários (ante 84 em 2022) e 101 advogados (ante 103), invertendo a hierarquia histórica. Empresários e advogados, somados, ocupam quase metade das 513 cadeiras. A contagem do TSE a partir da ocupação declarada no registro de candidatura é distinta — 201 deputados declararam "deputado" como ocupação, 27 "vereador", 61 "empresário", 55 "advogado" e 30 "médico" —, mas confirma a mesma direção: o topo da hierarquia ocupacional brasileira está sobrerrepresentado no Congresso por um fator que varia entre três e nove vezes, a depender do método de contagem e da categoria considerada.
Vale registrar a divergência metodológica: o DIAP apura a profissão de origem do parlamentar, enquanto o TSE registra a ocupação declarada no momento da candidatura. As duas leituras são legítimas e medem coisas diferentes. O erro está em usá-las indistintamente, como faz boa parte da imprensa.
A aritmética da desproporção
Traduzir esses percentuais em cadeiras torna o problema mais tangível.
Se a Câmara dos Deputados espelhasse a composição racial do Censo 2022, teria aproximadamente 285 deputados negros. Tem 135. O déficit é de cerca de 150 cadeiras. No mesmo exercício, haveria 223 deputados brancos — há 374. O excedente é de 151 cadeiras.
No Senado, a proporcionalidade exigiria cerca de 45 senadores negros. A Casa terá 23. O déficit é de 22 cadeiras em 81.
Para indígenas, a proporcionalidade indicaria quatro deputados federais; há três. Para amarelos, indicaria dois; há um. Isoladamente, esses dois casos são próximos da paridade. O problema estrutural está na clivagem branco/negro, que concentra praticamente toda a distorção.
Há um terceiro filtro, de gênero, que agrava o quadro: as mulheres são mais da metade da população e ocuparão 21,2% da Câmara e 22,2% do Senado. A interseccionalidade racial e de gênero é o ponto de maior exclusão: mulheres negras são o grupo com menor presença proporcional em ambas as Casas.
Por que a distância persiste: financiamento, recrutamento e capital político
A sub-representação não é acidente eleitoral. Ela é produzida por três mecanismos identificáveis.
O primeiro é o financiamento de campanha. Nas eleições de 2026, pretos e pardos representavam 49,64% das candidaturas, mas apenas 34,85% das candidaturas consideradas pelo TSE para fins de distribuição dos recursos públicos. Mulheres negras eram 19,4% das candidaturas e receberam 12,3% dos recursos; homens negros, 30,6% das candidaturas e 23,1% dos valores. A série histórica mostra avanço — a fatia dos recursos destinada a candidatos brancos caiu de 86,1% em 2014 para 75,4% em 2022 —, mas a assimetria permanece estrutural.
O segundo é o recrutamento partidário. O estudo do Senado sobre financiamento público nas eleições proporcionais de 2018 e 2022 (Texto para Discussão nº 367) demonstra que a probabilidade de eleição para deputado federal permanecia praticamente nula até o oitavo decil de receita de campanha. Ou seja: abaixo de determinado patamar de recursos, não há competitividade, independentemente do mérito do candidato. Como o acesso a esses patamares é racialmente desigual, o filtro financeiro opera como filtro racial.
O terceiro é o capital político prévio. Cargos eletivos anteriores, redes profissionais e inserção em estruturas de poder — sindicatos patronais, ordens profissionais, igrejas, forças de segurança — funcionam como credenciais de entrada. A baixa renovação de 2026 (35,67%) é a expressão estatística desse mecanismo: quem já está dentro tem vantagem decisiva para permanecer.
O que isso significa para a gestão pública e para o Judiciário
Três implicações merecem atenção de quem opera políticas públicas ou decide com base em normas produzidas pelo Legislativo.
A primeira é sobre agenda e prioridade orçamentária. Um Parlamento composto majoritariamente por empresários de acumulação, advogados e profissionais de alta renda tende a produzir normas orientadas por esse repertório. Não se trata de supor intenção individual — trata-se de reconhecer que a vivência define a percepção do problema. Políticas de igualdade racial, reforma agrária, tributação de lucros e dividendos e regulação do mercado de trabalho são matérias nas quais a composição do colegiado tem peso demonstrável sobre a tramitação.
A segunda é sobre legitimidade institucional. A distância entre representante e representado é um dos fatores que explicam a desconfiança social nas instituições. Quando um colegiado que decide sobre políticas de igualdade racial não se parece com a população afetada por elas, a decisão perde ancoragem social — e ganha vulnerabilidade a questionamentos.
A terceira é sobre o próprio Judiciário. A mesma pergunta de representatividade descritiva se aplica aos tribunais, e é razoável que a magistratura a enfrente com o mesmo rigor com que este artigo a aplica ao Legislativo. Um sistema de justiça que julga conflitos raciais e ocupacionais precisa examinar a composição de seus próprios quadros.
Síntese
A sociedade brasileira é 55,5% negra, majoritariamente assalariada (69,2% dos ocupados são empregados) e tem apenas 3,3% de empregadores. O Congresso que a representa é 69,1% a 72,9% branco e tem quase metade de suas cadeiras ocupadas por empresários e advogados. A legislatura eleita em 2026 não corrigiu a distorção racial — manteve exatamente os mesmos 26,3% de deputados negros —, ampliou o peso dos empresários e elevou o número de mulheres. A causa não é a ausência de candidatos ou de empreendedores negros, mas a distribuição desigual de financiamento, de capital político e de acesso a cargos de comando.
O espelho segue partido. E a fratura tem nome, endereço e série histórica.
Referências
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